Segunda-feira, 7 de Março de 2011

AS DUAS VIAS DA COVILHÃ




Assim num primeiro enfoque, a Covilhã parece apresentar, à semelhança de ser abraçada pelas suas duas ribeiras, a Degoldra e a Carpinteira, duas outras correntes tão persistentes como estas: a corrente que vem das pastagens da serra e da tosquia das ovelhas, enfim, a indústria lanífera; e a corrente das igrejas das ordens religiosas, dos conventos de S. Francisco e de S. António. Ambas as correntes atravessaram a história nacional e dão hoje o seu fruto exponencial, a primeira nas modernas fábricas de lanifícios e demais indústria, a segunda na universidade ou nas organizações artísticas, como os grupos corais. Estou enganado? Parece-me bem que não, que estas duas ribeiras culturais, uma material e a outra espiritual, abraçam com o seu leito a cidade da Covilhã. Fica aqui esta breve nota, que pedia outras observações que deixo à imaginação do leitor.

José Manuel Morão

Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

A MINHA CIDADE DA GUARDA


             A minha Guarda é a do início dos anos 70, a passar o ano da Revolução de 1974. Tinha doze anos por essa altura. Foi então que eu vivi dois anos na Guarda. Comentavam então que tinha acabado o “fascismo”, mas eu não entendia o que diziam, porque nunca tinha conhecido o que era o fascismo. Também agora diziam que este e aquele eram “fachos” e o Pe. Ferreira chamava ao meu pai “capitalista arrebentado”, e depois desculpava-se dizendo que era uma brincadeira, que não o dizia por mal. Eu é que não entendia nada daquela conversa, vindo de uma aldeia e de uma família trabalhadora, de serenos costumes. Para quem sai duma aldeia e vai estudar para a Guarda, a experiência é inesquecível, dada a minha idade. É perfeitamente impossível dar uma ideia completa do que foram esses anos; contento-me com um apanhado realista de lugares e situações que dêem uma pequena ideia do quadro que são alguns anos das nossas vidas.
            Quando se chegava à Guarda pela estrada antiga, pelo pitoresco vale até ao alto de Santa Cruz, depois de merendar com os meus pais num dos vários parques de merendas com fonte, antigos, que a Guarda oferece aos seus visitantes, depois de se chegar à Guarda, dizia, o mais natural é irmos dar à Praça, que tinha a robusta estátua de D. Sancho I ao centro. Muitas vezes ali ia a pé, depois que os meus pais me deixavam na cidade. Subia os degraus da Sé e entrava pela porta lateral que dá para a Praça. Já lá dentro, deambulava contemplando as grossas colunas, as capelas laterais, o altar-mor, a pequena porta que subia às torres, os pés sobre os túmulos do chão de pedra, onde tentava decifrar nomes e o mais que não entendia.
            Nos dias de semana a rotina era outra: a missa em jejum, na qual de quando em quando um jovem desmaiava e era assim levado para a camarata, sem que o incidente viesse a perturbar a missa, com o Pe. Ferreira ajoelhado no seu genuflexório; a grande sala de estudo, toda branca, com pequenas carteiras, onde estudávamos durante toda a tarde de sábado; as refeições na cantina; o senhor que vinha recolher a nossa roupa para a lavandaria; os aposentos dos priores, misteriosos e inacessíveis, mas cheios de uma estranha bondade; a linda sala de recepção, meu cais de embarque e desembarque do carro dos meus pais. O meu pai tinha então comprado um carro fenomenal, um Renault 16 TS, cujos estofos novinhos cheiravam tão bem. Mas era assim a vida lá dentro.
Cá fora a cidade esperava-nos, granítica e alegre. Pois. Já então tinha esta ideia de que os lugares alegres não têm que ser lugares abrasadores, mas sim lugares cuidados, serenos, sem confusão e com espírito. Talvez a Guarda me tenha ensinado naquela tenra idade o que é ter-se espírito. Pois assim era: cá fora ia-se até à papelaria que ficava quase debaixo das arcadas da Torre dos Ferreiros (?), ou a uma outra mais chegada ao Museu, onde gastava o dinheiro (geralmente cinquenta escudos) que a minha mãe me ia mandando dentro de uma carta. Entrar no museu era lindo, ver todas aquelas armas antigas e canhões, pinturas, estátuas, e o espólio do poeta Augusto Gil. Em frente do Museu ficava o então activo Café Monteneve, o Montalto da Guarda. Podia-se também ir até à Torre de Menagem do castelo e ir pela floresta que cercava um outro espesso troço de muralha. E depois descer pela rua que passa em frente do Paço Episcopal, ou olhar de fora algum dos estabelecimentos de ensino, dos muitos que havia na Guarda, alguns dos quais eram conhecidos por alcunhas: as “lurdinhas”, colégio feminino, o “côdeas”, antigo Ciclo Preparatório, o Liceu. Mas este ficava já à beira do belo jardim com o lago (perto do Estádio Municipal), onde se davam uns passeios inesquecíveis, olhando os cisnes. Eu estudava no “rocha”. Porque o nosso hino dizia: “Como rocha firme / eis que o nosso lema é / ter vontade forte / imitar a S. José”. Durante uma noite caiu o maior nevão de que tenho memória, que quase não permitia que se abrissem as portas, de modo que ficámos retidos dentro das paredes do grande edifício. De Verão, fazíamos uma grande caminhada para chegar até ao Lago Golifar (?), que alguns dos mais velhos ou destemidos se atreviam a atravessar a nado. Eu nunca arrisquei. E de novo se voltava à Praça, onde de uma casa de grosso granito via surgir, lá do fundo do empedrado, um colega meu, o Prudente. Ah, já me esquecia! Daqui te mando um grande abraço, meu grande amigo de então, rapaz frágil e simpático, o Gerson, que tinha os pais no Brasil. E já agora também ao Diogo ou ao Geraldes (?) e ao Afonso, estes últimos que eram naturais de Quadrazais, mas não ao Messias ou ao Narciso, meus “inimigos”. Assim é, a vida das crianças está cheia de coisas lindas! Esta foi a minha Guarda, e quando uma cidade nos fica assim chegada, fica-o para sempre. É por isso que volto sempre com um grande contentamento à minha velha Guarda.


José Manuel Morão

Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

COMO SERÃO OS PRÓXIMOS 30 ANOS NA COVILHÃ?


            Esta crónica será escrita ao sabor do cursor que vai andando pelo ecrã. Não adianta fazer um plano, pois as facetas a abordar seriam inumeráveis. Tenho que confiar na capacidade selectiva da minha mente na comparação da Covilhã dos meus 18 anos (anos 80) com aquela que antecipo para os próximos 30 anos.
            Em primeiro lugar, cabe-me salientar o papel mais interveniente da Câmara Municipal na captação de investimentos para a criação de estruturas que tendem a renovar o panorama tecnológico da cidade e o próprio quotidiano das pessoas: o Parkurbis ou o novo plano arquitectónico para a cidade assim o demonstram. Por outro lado, todos comentamos que a cidade-fábrica passou a cidade universitária. Esta afirmação não deixa de ser preocupante, pois os dois campos não se excluem, não podem excluir-se. As fábricas fazem parte do património laboral da Covilhã e será bom que a juntar às que se mantêm activas (como a de Paulo Oliveira ou a dos Brancais), outras de igual ou superior envergadura possam vir a afirmar-se. No futuro essas empresas poderão contar com a rede de conhecimentos proporcionada pela UBI ou por estruturas tecnológicas e educativas similares, o que decerto trará uma vantagem incontornável neste novo mundo tecnológico. Não podemos hoje adivinhar que tipo de empresas a Covilhã desenvolverá nos próximos trinta anos, mas a experiência ensina que são os filhos de peixe que sabem nadar (por mais pequeno que de início seja o peixe!) e que a tradição da Covilhã se situa na área dos lanifícios, mineira e do comércio. Decerto as empresas ligadas à Tecnologia da Informação hão-de desenvolver-se, bem como aquelas que visem dotar a cidade de uma nova face cada vez mais moderna.
A UBI foi a outra revolução destes últimos 20 anos e espera-se que para os próximos 30 continue a formar os jovens desta e de outras regiões para um mundo crescentemente disciplinado e competitivo. Seria louvável que a área da criação cultural crescesse e tomasse uma dimensão de interesse nacional e repassasse mais habilmente para a praça pública, lugar onde finalmente qualquer desenvolvimento se testa. O ensimesmamento da instituição nunca poderia trazer bons resultados.
O desenvolvimento da cidade nos últimos 20 anos tem sido notável, embora talvez não tão rápido como seria desejável. A mentalidade é um dos factores que muito condiciona o desenvolvimento da Covilhã. As pessoas querem-se de espírito participativo e tendo em vista o superior bem comum. Também outras formas de privilégio, que nem sempre servem a cidade, podem tender a desvanecer-se com o tempo. Em traços largos, o vale da Degoldra passará com o tempo a competir com o centro da cidade (a Praça do Município), bem como outros pólos urbanos se desenvolverão, mas como é característico das cidades europeias, o antigo centro urbano, com as suas artérias de comércio e serviços, com a sua aura, continuarão a atrair decisivamente as pessoas.
Vou voltar brevemente aos meus 18 anos: havia duas escolas secundárias principais na Covilhã, a Frei Heitor Pinto e a Campos Melo, nas quais sucediam as experiências mais emocionantes da vida de um jovem, experiências que se prolongavam segundo os conhecimentos de pessoas que nelas fazíamos e que se projectavam noutros lugares. Havia duas livrarias principais, a Nacional e a Brincarte. Havia não sei mais o quê. Hoje as escolas secundárias são mais e estão melhor apetrechadas. O covilhanense (e os habitantes do concelho) parece não ser muito dado à leitura, mas depois de outras tentativas a Bertrand parece ter-se implantado na cidade. E as pessoas até já parece que lêem mais. Seria bom que o fizessem cada vez mais nos próximos 30 anos. Portanto, a configuração da rede de escolas, de bibliotecas e de livrarias vai tender a ampliar-se com os anos, para acompanhar a sociedade do conhecimento.
            Por outro lado, as relações da Covilhã com o Porto, Lisboa ou outras cidades nacionais ou estrangeiras (sobretudo espanholas) vai intensificar-se. As acessibilidades de transportes vão aumentar, a mobilidade das pessoas também, a Covilhã irá tornar-se crescentemente um local de passagem para muitos fins. A Covilhã irá receber cada vez mais a influência cultural e tecnológica de outros centros nevrálgicos que possam trazer uma mais-valia à cidade. Esta por sua vez irá sedimentar-se intramuros com estruturas semelhantes ao Museu dos Lanifícios ou à própria UBI. Não será displicente descurar a lição do passado para perspectivar os próximos 30 anos: o Castelo tornou-se a Real Fábrica; a Real Fábrica tornou-se um quartel; o quartel tornou-se a UBI. É claro que a UBI se manterá como universidade nos próximos 30 anos. Só muito mais tarde é que já não sabemos! É que aquela pedra tem sido boa para muitas funções…
            Concluindo, se a Covilhã, por um lado, está no início de um novo paradigma – o universitário e o das estruturas de conhecimento – , por outro lado debate-se com dificuldades na sua mais ancestral afirmação agrícola, industrial e comercial. É este o desequilíbrio que hoje se sente na Covilhã: cidadãos com pleno emprego na indústria com maior facilidade aproveitariam as potencialidades da universidade; e a universidade melhor poderia servir um tecido social impregnado de novas empresas, novo capital e salários. De uma coisa tenho a certeza: aproveitando-se da melhor forma os recursos humanos existentes na cidade e no concelho (são os cidadãos que estão primeiro, embora imersos em estruturas muito variadas), não esquecendo as melhores potencialidades da Serra da Estrela e de todos os âmbitos onde os homens e as mulheres possam investir o seu engenho, espera-se que o Poder Municipal, a Universidade, as Estruturas Educativas e o Tecido Empresarial possam continuar a ter a última palavra nos próximos 30 anos.

José Manuel Morão

Sábado, 27 de Novembro de 2010

UM ASPECTO DA PINTURA DE ARTUR ALEIXO




Resolvi escrever em quinze minutos a impressão que certos quadros de Artur Aleixo, natural do Peso, me causaram. A vida cada vez mais exige de nós, cada vez temos menos tempo, mas esses quadros valem muito mais do que o que aqui fica dito.
Encontro representado neles algo de imemorial e arquetípico: todas as pragas, todas as doenças, todos os sofrimentos, todas as fomes, todos os penitentes, todas as mortes à vista ou ocultas. Quero dizer, Artur Aleixo encontrou nesses quadros a forma pictórica-arquétipo de tudo isso e do que lhe é congénere.
Quanto ao tema dos penitentes, que esses quadros me parecem nitidamente evocar, devo notar de passagem que discordo do enquadramento feito desse tema pela Prof.ª Antonieta Garcia, na sua obra dedicada ao tema. Se actualmente temos uma celebração dos penitentes que coincide com a Quaresma, tal trata-se apenas de uma sedimentação cultural de uma realidade concreta que a investigadora ignora. E mais não vou dizer.
O Artur Aleixo trouxe até nós esses tempos do nosso inconsciente colectivo (porque vividos por nós e pelos nossos antepassados) e soube dar-lhes mesmo um travo beirão, aldeão, muito próximo das suas raízes. Quadros notáveis, sem dúvida.





José Manuel Morão

Sábado, 13 de Novembro de 2010

MINHA SERRA, MINHA TERRA


(Crónica publicada em A Voz de Pontével, Novembro-Dezembro de 2010, jornal do distrito de Santarém)

Para os meditativos e contemplativos, a percepção do seu lugar de origem, do seu omphalos ou centro do mundo, vai mudando com a relação com outros lugares, com a relação consigo próprios, com a relação com esse próprio lugar. Tudo o que hoje possa dizer está em mudança e em aprofundamento, e é isso que hoje posso dizer que vai ser objecto desta crónica.
Para mais, esta crónica destina-se (por ordem de publicação) a habitantes muito distantes da Serra da Estrela, o lugar da minha terra natal, destina-se a um público ribatejano, já que vai ser publicada em A Voz de Pontével, terra e jornal do concelho do Cartaxo. Como apresentar aos ribatejanos a Serra da Estrela e as povoações que a cercam? Por isso falo em minha serra, minha terra. Não vou apresentar a dimensão turística da Serra da Estrela, que muitos já conhecerão, nem a Serra de uma elite com boas casas na serra, por mais simples que se apresentem (como a do recentemente falecido escritor covilhanense Alçada Baptista, que chegou a albergar o filósofo francês de renome Edgar Morin), nem dos luxuosos hotéis que nela haja. Embora, de um certo ponto de vista, ir à Serra seja ir à Torre ou às Penhas da Saúde, com o seu bonito hotel, a Pousada da Juventude e a magnífica Nave de Santo António.
Mas deixem-me falar da minha serra, minha terra, que não é bem aquilo que atrás referi, que é algo de mais pessoal, íntimo e poético. Da minha aldeia, chamada Peso, fazendo parte de uma corda de aldeias que se estende nas margens do Rio Zêzere (esse que vai desaguar mais perto de vós, ribatejanos, aí em Constância), do concelho da Covilhã, próxima do Tortozendo ou do Paul, da minha aldeia, dizia, contemplo na perfeição os dois grandes maciços que compõem a Serra da Estrela, quando se avista de longe, e sabemos sempre quando tem neve, e se tem neve sempre cá em baixo haverá algum frio. Isto contrariamente à nossa cidade ancestral, a Covilhã, da qual não se avista a Serra, pois a cidade encontra-se alcantilada na primeira encosta que se abre ao extenso vale chamado Cova da Beira. Cova, porque do outro lado ergue-se a igualmente bela Serra da Gardunha, com o Fundão no seu sopé, e entre uma e outra serras encontro a minha terra natal.
A minha terra natal, o Peso, é uma das aldeias mais antigas dessas da margem do Rio Zêzere, e é uma aldeia deveras interessante, nomeadamente devido à antiguidade do seu património sacro. Por um exemplo deveras raro, posso dizer que houve originariamente no século XIV uma pequena igreja, com um altar-mor que ficou esplendoroso com a talha dourada barroca mais tarde acrescentada, de um ouro velho. Com a edificação da nova igreja no século XVII, e dada a existência – mesmo com túmulos – do primeiro altar-mor (que é o que está voltado a Oriente, segundo as regras da arquitectura religiosa cristã), tendo-se erguido o novo altar-mor voltado a norte, o altar-mor da primitiva igreja passou a ser chamado Capela do Santíssimo, ficando uma capela lateral em relação à nova e harmoniosa igreja barroca então edificada. Na Capela do Santíssimo encontram-se as imemoriais imagens da Nossa Senhora da Conceição e da Nossa Senhora do Rosário. Mas como a nossa freguesia pertencia à freguesia de Santa Maria Madalena da Covilhã (que actualmente já não existe naquela cidade), a nossa padroeira é Santa Maria Madalena, cuja imagem está numa mísula do lado do Evangelho no actual altar-mor (o do século XVII), com o seu atributo, o vaso de unguento com o qual perfumou os pés de Jesus. Só a antiga torre sineira da igreja foi removida e erguida uma outra, bastante alta, já no século XX. E tal como a torre da igreja, todas as casas da aldeia aparecem assim altaneiras, devido a assentarem na encosta, o que as distingue de um habitat de planície.
Todas as aldeias nas imediações da Serra da Estrela terão muitas histórias semelhantes a esta, e outras. O que caracteriza a nossa paisagem e o nosso viver é este movimento que nos leva da tranquilidade das águas do Rio Zêzere ou de outras ribeiras, pelos povoados acima, até aos pinheirais, que finalmente vão desaparecer na fraga austera da Serra da Estrela. Há um valoroso complexo termal em Unhais da Serra, o H2otel, muito procurado pelas suas propriedades medicinais, que se situa exactamente na base onde os belos e altivos montes, primeiro macios e depois cada vez mais rochosos, sobem até à Nave de Santo António, este para mim o mais belo lugar paisagístico de Portugal. Imagine-se pois quantas histórias e façanhas não guardarão estas aldeias, durante muitos séculos perdidas na solidão majestosa da contemplação da Serra.
Da Serra da Estrela descem muitas ribeiras de água muito fria até no Verão, águas de neve, podia-se dizer. A mais importante delas é a Ribeira do Caia, que toma diversos nomes conforme as povoações por onde passa: Ribeira das Cortes, Ribeira de Unhais ou Ribeira do Paul. Este vale que de Unhais da Serra se estende para o Paul é um verdadeiro golpe da Providência: mal finda a alta e escarpada rocha da Serra da Estrela aparecem terras planas e cultiváveis, alimentadas por uma ribeira. Para mais, o movimento milenar de rochas graníticas pelo vale do Paul rolou pacientemente as pedras, Inverno atrás de Inverno, até estas tomarem formas completamente redondas e lisas, as maiores com cerca de cinquenta centímetros de diâmetro, as outras mais pequenas. Pois bem, foi com essas pedras que as casas da primitiva aldeia do Paul foram construídas, bem como todos os seus muros, ou talhando uma das faces da pedra de modo a tornar essa pedra redonda lisa na face exterior ou usando as pedras tal como são encontradas na ribeira e soterradas nos lameiros ou margens da ribeira. Os habitantes locais chamaram a essas pedras “gogos”. Quem hoje olhar as antigas casas e muros do Paul encontra essas curiosas paredes de pedras redondas que já alguém comparou a grandes ovos. A ribeira é belíssima, cheia de amieiros frescos e verdes, com águas caindo em açudes e extensas levadas que levam a água para a rega.
Deixem-me só evocar mais um lugar: é próximo da aldeia que está em frente da minha aldeia, que por ser mais pequena se chama Pesinho: refiro-me ao Solar do Ortigal. É um velho solar de granito, com capela junta, feito não sei exactamente em que época com as pedras de uma antiga villa romana, o que prova a antiguidade do povoamento na minha terra natal (mas por aqui há muitos castros, como o aqui próximo do Monte da Argemela, mas a conversa já vai longa e não há tempo para mais), e que dominava vastos campos de trigo. Para nós aqui é um lugar mítico, esta Quinta do Ortigal.
Pode parecer que disse pouco, e é verdade que o fiz, mas se há alguma forma de escrever que se aproxime do que eu sinto pela minha terra é esta, assim, contando coisas simples dos povoados e dos seus habitantes, de entre o tanto que havia para contar.


JOSÉ MANUEL MORÃO

Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

A COVILHÃ VOLTADA PARA O FUTURO



Nuno Teotónio Pereira, Uma Ideia para a Cidade da Covilhã, Lisboa, Edição da Ordem dos Arquitectos, 2005.

Finalmente começo a descobrir na Covilhã profundos e verdadeiros movimentos culturais que não se comprazem em “capelinhas”, geralmente de cariz boémio-marxista. Nem me vou deter mais no assunto. Pois bem, tornei-me leitor do elaborado jornal online Urbi et Orbi, a quem hei-de dedicar uma das minhas próximas crónicas, e resolvi adquirir e ler o interessante livro de Nuno Teotónio Pereira (com a participação de outras individualidades) Uma Ideia para a Cidade da Covilhã. Pois bem: é um livro que transforma a nossa ideia da Covilhã, também muito à custa do que nela está implícito. Propõe-se, aos mais atentos, uma nova cidade. Não me vou deter em todos os aspectos focados no livro, vou antes antecipar a minha viagem futura pela cidade da Covilhã.
Assim, reencontro a beleza e a tranquilidade das Ribeiras da Degoldra e da Carpinteira, reequipadas com o tradicional património industrial. Não há dúvida: a identidade da cidade está preservada. E este parece-me o ponto central dessa nova re-identificação dos covilhanenses, até porque nesses lugares vão ser criados espaços de usufruto cultural. Dizem os autores do livro serem estes “(…) os cinco grandes objectivos definidos no “Plano Estratégico da Intervenção Polis na Covilhã”: reabilitar os vales das ribeiras, despoluindo-as e criando espaços públicos, virar a cidade para esses vales criando novas frentes edificadas constituindo remate da estrutura urbana consolidada, revitalizar e preservar o património industrial destinando-lhe novos usos de âmbito cultural ou outros, favorecer a mobilidade pedonal através de pontes e meios mecânicos de acesso ao centro da cidade reduzindo a dependência do automóvel, corrigir o sistema de implantação de novas construções visando consolidar o tecido urbano e proporcionar a sua integração na paisagem.” (p. 11)
Se os espaços ribeirinhos se hão-de constituir novas estruturas cêntricas da cidade, as pontes pedonais alterarão decisivamente a noção da vivência do espaço, quer no olhar dos percursos, quer nos percursos do olhar. São grandes pilares encimados por extensos tabuleiros que alterarão a significação paisagística da cidade. Não é que o exemplo não se veja noutras cidades, como os autores do livro chamam a atenção, pois “redes integradas de circulação pedonal abrangendo o casco urbano, como existem em Monte-Carlo e Perugia” (p. 43) são uma realidade actual. Afirma-se: “A Covilhã não será mais confundida com outra qualquer cidade. A nova atitude embeberá a cidade na sua topografia, quer na imersão quer na emersão dos novos objectos e dos novos percursos. Parte-se da reconquista da paisagem, na recriação e (re)significação do poder do olhar.” (p. 29)
A este intuito dá o arquitecto Nuno Teotónio Pereira a designação de “aplanar a cidade”: “O conjunto de intervenções contempladas no Plano traduz-se num processo que se poderá designar por ‘aplanar a cidade’, tornando praticáveis a pé percursos que hoje não podem dispensar o transporte mecânico.” (…) Nestes casos, as pontes pedonais cumprem um papel decisivo, ao permitirem a ligação entre partes da cidade muito próximas visualmente em linha recta, mas que obrigam hoje a vencer grandes distâncias para o atravessamento dos vales.” (p. 45) Acrescenta-se ainda que “(…) É neste sentido que se cumpre a importância que as pontes da Covilhã poderão (ou deverão) alcançar. Porque, mais do que as outras estruturas que permitirão “aplanar” a cidade (as escadas mecânicas ou os elevadores), as pontes serão a expressão daquilo que ‘deverá ser lembrado’, ou seja, o ideal que a nova Covilhã quer ver concretizado. (p. 26) Portanto, as pontes pedonais vão conjugar-se com os acentuados declives e com o leito das ribeiras (despoluídas) ao fundo para nos oferecer a imagem da nova Covilhã, origem de novas vivências e de uma nova topografia do imaginário da cidade.
O centro da cidade, a Praça do Município (Pelourinho) já cumpre os novos desígnios para a cidade, desde a sua remodelação, a sua “emblemática remodelação” (p. 42) de 1999-2001, ao constituir-se como um espaço predominantemente cívico, com as belas colunas centrais trazendo-nos o simbolismo da neve.
Esta é a ideia (e os implícitos que só o tempo ditará por completo) da nova cidade da Covilhã. Adiro a essa ideia de corpo e alma. Queria apenas tecer algumas considerações que mostrem que nem tudo é linear e que as diferenças fazem parte das identidades. A começar pela concepção de arquitectura que se seguiu ao Estado Novo. Este parecia, como os romanos, construir para a eternidade. É essa arquitectura do Estado Novo que dá o seu cariz à Praça do Município. “Assim, na zona mais elevada, circundada por edifícios institucionais da chamada arquitectura do Estado Novo (Câmara, CTT, CGD, Cine-teatro) (…) (p. 50), constatam os autores. Os tempos mudam. Parece que vivemos um tempo de fragilidade, também arquitectónica, de que são exemplo o edifício do Montiel ou a Igreja da Santíssima Trindade. Mas são o nosso tempo.
Por outro lado, se se insiste na centralidade da Praça do Município corremos o risco de não respeitar a descentralização dos bairros covilhanenses, e as pontes pedonais podem ser vislumbradas por alguns como uma intrusão no carácter particular desses bairros. Mas, com esta nova e esplêndida ideia da cidade, já não podemos esperar que os covilhanenses se voltem a habituar a viver com o seu relevo e os seus declives, tal como outras cidades europeias vivem com as suas temperaturas muito baixas, de muitos graus negativos. Ninguém pode alegar que a beleza das pontes pedonais fere a paisagem. Não. Elas são o seu elemento humano mais fortemente constituinte, elas anunciam novas vivências ao olhar e à experiência.
É certo que outras cidades, como por exemplo o Porto, recusariam a solução das pontes pedonais em favor da mobilidade. Ninguém imagina uma ponte pedonal ou outra desde o Morro da Sé até S. Bento da Vitória. Porquê? Porque essa solução não faz parte do modo de os portuenses viverem a sua cidade, cidade repleta de património arquitectónico que se quer vivido no seu lugar de instauração. A Covilhã, em termos arquitectónicos é uma cidade nova, neste sentido em que o edificado não exige um respeito rigoroso pelas suas perspectivas, em que os vales se abrem em vertentes de campos verdes e de algumas fábricas. Não se pode comparar o que não tem comparação. O que não chego a entender são afirmações como as que atestam que a Igreja da Misericórdia está “isolada” na Praça do Município. Pois quê? Queriam duas igrejas antigas lá juntas? O que é pena é que a Covilhã não tenha muito maior número de espécimes desse património histórico. Pensar que queriam trasladar a Igreja da Misericórdia da Praça do Município para outro lugar! Felizmente a recuperação do Convento de Santo António, na Covilhã, é um exemplo da importância do património arquitectónico histórico para a cidade do futuro. A cidade do futuro não pode viver sem o seu passado, nem este sem o seu futuro.
Queria terminar esta crónica com duas notas apenas. A primeira é a marca de modéstia da nova arquitectura da cidade, adaptada aos novos tempos, à sua fragilidade, e de como é necessário aprender a apreciar essa profunda modéstia que se entranha, pela cidade, no nosso ser. A segunda é a constatação de como estas ideias e concepções podem inspirar as vivências noutras vilas e aldeias do concelho, por uma espécie de transfusão estrutural, seja ao nível do espaço físico, seja ao nível das sedimentações mentais.


José Manuel Morão


Sábado, 30 de Outubro de 2010

JAIME BRAZ, UM PINTOR COVILHANENSE



E mais tarde, imprevisivelmente, o bem-humorado professor de Biologia Jaime Braz tornou-se pintor. Não tenho muito para dizer da sua pintura porque a sua pintura não se presta para dizer muito acerca dela. É uma pintura kitsch. O surrealismo foi uma corrente demasiado séria, praticada com um empenhamento criativo em cujo âmbito a pintura de Jaime Braz não pode ser enquadrada. Basta-nos ler os Manifestes du Surréalisme, de André Breton ou uma qualquer colecção de depoimentos de pintores ou poetas surrealistas para o percebermos.
O que impressiona na pintura de Jaime Braz, contrariando a tendência das grandes correntes da pintura do século passado (o século XX), é a técnica fotográfica da representação, técnica de elevado nível, sem dúvida, mas que coloca a questão de se é disso que a arte verdadeiramente vive. Essa técnica fotográfica é influenciada pelas gravuras das publicações científicas, especialmente da geografia, da biologia e da astronomia. Mas donde se colhe a arte?
Resultado: Quadros de diferente estatura estética, revelando um mundo artístico com um fundamento incerto, em que não podemos dizer estar em presença de uma coerência estilística e artística consumada, nem de fundamentos teóricos reflectidos e reflectidamente executados. O grande trunfo de Jaime Braz é a sua técnica, que por vezes impressiona como raras vezes acontece em artistas covilhanenses.


JOSÉ MANUEL MORÃO


Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

PONTO DE VISTA EXPLICATIVO SOBRE OS MEUS BLOGUES

Falo nesta crónica da minha prosa, não da minha poesia, e esta é para mim mais importante.
No ano em que leccionei em Viana do Castelo, cidade harmoniosa e inspiradora, comecei a escrever diários e outros textos afins. Estes serviram como período de incubação para a minha poética. Neste momento estou em transição não para uma outra poética (a qual não mudará – creio –, somente se aprofundará com o tempo, com o mundo empírico tal como é comummente entendido a já não me interessar da mesma forma e a voltar-me mais para as verdadeiras fontes), mas para um diferente enfoque da minha poesia. Bem, mas disse que não ia falar da minha poesia.
A verdade é que, por agora, já não tenho necessidade de manter um diário poético, como aconteceu sobretudo quando leccionava em Viana do Castelo e nos anos subsequentes. (Mas ainda nem terminei o livro de poemas de Viana do Castelo). Esses diários formam um todo completo e uniforme, uma sombra de fundo no quadro da minha poesia.
Com a sociedade contemporânea cheguei agora à época de assinar vários blogues, que, como é característico em mim, distribuo pelos locais das minhas vivências mais profundas: a minha aldeia, o Peso (o lugar mais importante), a Covilhã, cidade ancestral do Peso, o Porto, leal cidade dos estudos e dos regressos, e Lisboa, lugar do nosso futuro enquanto nação. Para além destes, alguns blogues profissionais ou de outra índole. Caracterizam todos eles, de um modo geral, o seu carácter imediato, a ausência de uma fundamentação muito cerrada, uma prosa que não precisa de ser primorosa e apurada, mas uma blogosfera de verdades que atingem profundamente o coração (os antigos chineses não distinguiam entre o intelecto e o coração, e mais uma vez tinham razão).
Os blogues, além de serem o que são, páginas disponíveis na internet, dão ao seu autor pretextos para outras possibilidades, tal como o pretexto para um ensaio, e neste ponto passo a outro grau de exigência e a outro formato de apresentação: o livro. Mas sei de antemão o que é matéria para um ensaio e o que é matéria para um blogue de crónicas. Sei até que as minhas melhores crónicas poderiam ser aperfeiçoadas se não fossem o que são: crónicas de blogues.
Temos que deixar fluir a nossa natureza, deixar o tempo ditar-nos as suas palavras, procurar que as nossas melhores fontes não sequem e se renovem as suas águas. A minha intenção ao escrever estas palavras não é expor-me, mas dar um exemplo que possa despertar o interesse noutras pessoas. Escrevo por bondade, sem presunção. Até à próxima, fratres.

Já agora deixo aqui o endereço de outro blogue, para quem se interesse pelos temas das aldeias: http://www.cronicasdopeso.blogspot.com/ Clica no endereço.


José Manuel Morão

Quinta-feira, 16 de Setembro de 2010

O PINTOR ABALADA CANÁRIO, O CAFÉ MONTALTO E OUTROS DIAS FRIOS

Nem um único quadro de Abalada Canário consigo encontrar para matar saudades e ilustrar a minha crónica, pesquisando com um motor de busca na internet. E estou convencido que o Canário é um verdadeiro pintor, um pintor de corpo e alma. O que sucedeu então? Houve um tempo em que qualquer estabelecimento que quisesse decorar as suas paredes, com um quadro ou dois, os encomendava ao Abalada Canário. Conhecidas ficaram também as suas exposições no salão debaixo das arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, que eram sempre objecto de notícias nos jornais. O seu surrealismo peculiar, genuíno, foi uma “pedrada no charco” na Covilhã dos seus tempos. Lembro-me de um dia ele se me queixar de que quem não tivesse um bom crítico que o apoiasse não singraria. Só agora começo a compreendê-lo. Mas a sua pintura surrealista tornou-se, por muitos anos, um sinónimo da vida artística da Covilhã. Foram uns tempos inesquecíveis, eu era jovem, frequentava a Frei Heitor Pinto ou a Campos Melo, vivia-se na Covilhã a influência do existencialismo, com Albert Camus e Jean-Paul Sartre, e do surrealismo, com Salvador Dalí.
A Covilhã vivia os tempos de antes da UBI. Na rua parecia haver menos burocracia e mais ideias e convivência. O Café Montalto, que resistiu a todas as boas intenções de o reabrir, acolhia todas as classes sociais, e ainda tinha os irresistíveis flippers na cave, onde na altura os da minha idade deixavam as suas moedas a troco de alguns bónus para continuar a jogar. Outros locais conhecidos pelos seus flippers eram o Sporting da Covilhã e, ao lado, na antiga praça de táxis, o café Pólo Norte. Mas em qualquer recanto se encontravam jogos de flippers, alguns muito engraçados. O Café Montalto era o local de convívio mais central da Covilhã. Quantas vezes nos deixávamos ficar só encostados às grandes arcadas da sua entrada por uma hora… E então passava o Zé Maria, que poucos lembram já, sempre com um livro na mão. Um bom exemplo.
O momento mais vip a que assisti no café Montalto foi quando a cantora Eugénia Melo e Castro (apelidos muito significativos para quem faça uma ideia da história da Covilhã) foi com amigos ou familiares ler o jornal numa das mesas do café. Não se via a pequena cantora, só se via o jornal. Formou-se à volta dela um halo impenetrável que contemplávamos de longe. De resto, a rotina do Café Montalto era sempre a mesma e interessante: os amigos, os conhecidos, os mais pobres e os mais ricos, ali estavam todos juntos. Também já não sou do tempo das conspirações operárias naquele café…
Outros jovens tentavam a sua sorte na vida artística e houve um boom musical na Covilhã, ainda antes do disco Ar de Rock, de Rui Veloso, o seu primeiro disco, na sequência de concertos das duas grandes bandas da época: os portuenses Arte & Ofício e os lisboetas Tantra. É claro que os jovens acorriam em massa a esses concertos. E assim outros amigos do ensino secundário, como o “Sapinho” e o “Sapão” (assim alcunhados por serem vizinhos e pelas compleições físicas, magro um, forte o outro), tocaram em diversas bandas musicais.
As tardes só pensávamos em passá-las nas discotecas, primeiro o Xanana, do Artur Aleixo, e depois o Pick Up, perto da Garagem de S. João, ou o Retiro, ao lado da igreja de Santa Maria. Foram tempos muito felizes, mas também muito frios. E quando digo “frios” não me refiro ao frio no corpo, mas ao frio da juventude com ideais. Havia também um bar muito característico para nós jovens que naquele tempo gostavam da penumbra, que foi o Solmar, ali numa daquelas vielas próximas da antiga praça de táxis. Creio que nesse bar ouvíamos muito reggae. Os da minha idade entendem o que estou a dizer, os da geração seguinte já não fazem ideia do que digo. Mas agora as discotecas são maiores, com horários mais prolongados pela noite fora, e os jovens ainda mais excessivos.
Hoje há na Covilhã outros que pintam quadros, mas não há pintores como o Abalada Canário o foi. Exceptua-se o grande artista Rodolfo Passaporte, talvez ainda com maior envergadura que o próprio Abalada Canário, mas que talvez tenha pecado por ser muito reservado, pois em tantos anos de vida na Covilhã nunca o vi ou soube o que quer que fosse sobre ele. A ideia que tenho dele é a de uma sombra que pinta num quarto andar. Ao Abalada Canário encontrei-o a residir, quando eu estava na minha primeira adolescência, numa mansarda da Rua Marquês de Ávila e Bolama, salvo erro, ali perto daquelas escadas que hoje sobem para o Largo de S. Silvestre.
Será que tudo isso acabou: o café Montalto, a pintura de Abalada Canário, os dias frios da juventude? Depois de tantos anos de presença, as coisas acabam assim, sem que ninguém delas guarde uma memória? Para que servem os museus e os centros culturais? A Covilhã (não disse a UBI) devia ir recolhendo a sua memória.


José Manuel Morão

Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

D. LUIZ, CARTA RÉGIA DE 16 DE JANEIRO DE 1871 - DEPOIS DE A COVILHÃ TER SIDO ELEVADA A CIDADE POR DECRETO DE 20 DE OUTUBRO DE 1870


Dom Luiz

«Dom Luiz por Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves etc.
Faço saber aos que esta Minha Carta virem que attendendo a que a minha notável Villa de Covilhã, no districto de Castello Branco, é uma das Villas mais importantes do Reino pela sua população e riqueza. Attendendo a que a mesma Villa é uma das povoações do reino que mais se tem distinguido pela fecunda iniciativa de seus habitantes na fundação e aperfeiçoamento de muitos e importantes estabelecimentos fabris, cujos productos podem já disputar primasia com os das fabricas estrangeiras mais acreditadas pelo seu desenvolvimento industrial. E desejando dar aos habitantes da referida Villa um solemne testemunho do subido apreço em que tenho os seus honrados esforços pelo progresso e aperfeiçoamento da industria nacional: Hei por bem fazer mercê á dita Villa da Covilhã de a Elevar á cathegoria de Cidade, com a denominação de cidade da Covilhã, e Me apraz que n’esta qualidade que de todas as prerogativas, liberdades e franquezas que directamente lhe pertencerem. Pelo que Mando a todos os Tribunaes, Auctoridades, Officiaes e mais pessoas a quem esta Minha carta for mostrada que indo assignada por Mim, referendada pelo Ministro e Secretario d’Estado dos Negocios do Reino e sellada com o sello pendente das Armas Reaes, hajam a sobredita Villa por cidade e assim a nomeei sem duvida ou embargo algum. Pagou de direitos de mercê e addicionaes cento e cincoenta e quatro mil réis, como constou de um conhecimento em forma de numero quinhentos vinte e cinco passado em dezesseis do corrente mez pela Recebedoria do sello de verba do districto de Lisboa. E esta carta é passada em dois exemplares um dos quaes depois de registado nos livros da Camara Municipal da Covilhã e no Governo Civil de Castello Branco, servirá para titulo d’aquella corporação, e o outro será depositado no Real Archivo da Torre do Tombo.
Dada no Paço da Ajuda em deseseis de Janeiro de mil oitocentos setenta e um.
El-Rei (rubrica)
Antonio Bispo de Vizeu.»


 OBSERVAÇÃO: A elevação a cidade não pode, portanto, desligar-se da acção e ambição da geração de industriais de José Maria da Silva Campos Mello, que faleceu em 1866. Já o seu irmão, também industrial, Francisco Joaquim da Silva Campos Mello, ainda pôde viver para tomar conhecimento da meritória distinção, pois só veio a falecer em 1876. (Cf. a crónica anterior).

Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010

O MONTE, AS RIBEIRAS, AS FÁBRICAS, CAMPOS MELLO, A ESCOLA TÉCNICA & C.,ª Lda.

A Covilhã, com o seu castelo, surgiu no monte mais próximo das ribeiras, devido à importância da água. Importa referir que, ao que parece, essa não foi a sua localização primitiva: “A antiga Covilhan estava situada na parte mais baixa da cidade actual, junto aos pomares da ladeira de Martin Collo (…); (…) foi-se dilatando para o lado superior da encosta.” (1) O que importava não era fundar uma cidade afastada da comunicação com o resto do reino, mas próxima às vias de comunicação com outras cidades, vias que foram primeiramente abertas pelos romanos. Parece que queriam fazer os antigos celtas descer à planície e expandir o processo da romanização nas suas várias vertentes, a menor das quais não será a da língua e da cultura. Por outro lado, o rio Zêzere passava no vale abaixo, onde, depois de juntos os caudais da ribeira da Carpinteira e da Degoldra (agora andam por aí a chamar-lhe erradamente Goldra) na ribeira de Corges, nesse rio desaguavam.
Mas desde cedo as duas ribeiras deram à cidade a sua vocação fabril, conjugadas com os grandes rebanhos que os pastores levavam a apascentar na serra da Estrela ou pelas longínquas rotas da transumância. Essa vocação fabril talvez se tenha manifestado ainda desde tempos antes da monarquia. Imaginamos a beleza das primeiras fábricas, perfeitamente integradas nos leitos das ribeiras, colhendo as suas águas para mover os mecanismos. Algumas ainda existem. Ou se não são as mesmas devem ser parecidas.
Em conclusão, a cidade da Covilhã só não está situada no vale devido à castrense e medieval necessidade de defesa, devido às muralhas incrustadas no cimo de um monte. A cidade não tem vista para a serra, não foi essa a preocupação, os tempos não eram de turismo ou poesia. Ao tempo e à sobrevivência não interessavam as vistas. Decerto que no vale passava uma importante via romana, a mesma que ia servir as explorações mineiras da ribeira de Gaia, ali perto de Belmonte. Os romanos vieram para a Península fundamentalmente por causa da extracção mineira.
No tempo de fazer o castelo ainda houve engenho para talhar as pedras. Quando foi necessário construir a Real Fábrica (ao tempo da do Fundão e da de Portalegre) bastou destruir o castelo… Destruir não será bem o termo, porque o castelo já estava arruinado pelos tempos. Mas decerto a ruína humana interveio então consideravelmente. Tudo muito prático, sem sensibilidade pelo património. Também outras fábricas se aproveitaram das pedras, e até os particulares. Foi uma pilhagem consentida... (2)
A Covilhã abrangia o extenso vale que hoje chamamos Cova da Beira, nome que não é muito poético. Houvesse uma pequena ermida no vale, como há na nave de Santo António, e poderia muito bem chamar-se-lhe Vale de S. António, ou Vale das Duas Serras, atendendo a que é formado pelo vale da Serra da Estrela e da Gardunha, a maior serra e outra das maiores de Portugal. Cova da Beira não é lá grande nome… Até os chamados Covões da serra da Estrela são nomes mais soantes…
Depois do século de ouro da indústria dos lanifícios da Covilhã, o século XVIII (2), o nome que hoje nos aparece mais associado à indústria de lanifícios da Covilhã é o de Campos Melo, ou melhor, José Maria Veiga da Silva Campos Mello, o que não causa estranheza, pois quotidianamente (e desde a nossa juventude de estudantes) vemos a sua estátua de mãos estendidas em serviço pelos lanifícios, junto à Escola Campos Melo, vemos a placa de centenário de nascimento na casa onde ele nasceu, na rua que tem hoje o seu nome (Rua Comendador Campos Melo) e apreciamos o belo jazigo no cemitério da Covilhã:
«José Maria da Silva Campos e Mello — (Comendador) nasceu na Covilhan em 29 d’Agosto de 1808 e morreu no dia 3 de Março de 1866, legando á Mizericordia d’esta villa 1:500$000 reis.
Negociante opulento e chefe d’industria fabril, foi dos mais incançaveis filhos da Covilhan, que aproveitando a fecunda lei protectora de 10 de Janeiro de 1837ajudou a leval-a ao subido grau d’explendor e progresso.
Em 28 de Março de 1864 o Governo de Sua Magestade, em attenção ás excelentes qualidades d’este respeitável Portuguez e dos eminentes serviços por este prestados á industria nacional o condecorou com o gráu de commendador da Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo. Reedificou pelos annos 1852 a denominada Fabrica Velha, sita na ribeira da Carpinteira:
Fabrica Velha:
Gosava dos mesmos privilégios da fabrica de Cascaes, em virtude da Régia Provisão de 11 de Dezembro de 1800.
Manufacturava fazendas de lan e ultimava e tingia fazendas de particulares.
Pessoal:
Mestres . . . . . . 3
Aprendizes . . .  2
Officiaes . . . . . 15
Serventes . . . .  8
Total . .  .  28
‘E hoje a grande fabrica-Campos Mello & Irmão.»
Portanto Campos Melo foi um notável industrial português, que trouxe à indústria nacional consideráveis aperfeiçoamentos técnicos, e que fundou a primeira Escola Técnica, em 1884:
«ESCOLA INDUSTRIAL «CAMPOS MELLO» — Pelo decreto de 3 de janeiro de 1884 foi creada esta escola, que foi aberta em 9 de dezembro do mesmo anno, e, mais tarde, 2 de agosto de 1885, solemnemente inaugurada no edifício que occupa, na rua de Santa Marinha, offerecido pela Camara Municipal.
Movimento d’esta escola desde a sua abertura até fins de 1897:
Frequencia: —Desenho, 1: 142 do sexo masculino e 75 do feminino; mathematica, 212 m.; francez, 405 m. e 2 f.; chimica, 94 m.; tecelagem 95 m. —Total, 2:025.
Examinados: —Desenho, 346 m. e 27 f.; mathematica, 48 m.; francez, 130 m. e 1 f.; chimica, 11 m.; tecelagem, 37 m. — Total, 607.
Actualmente há apenas dois professores: um de chimica e outro de desenho e mathematica, tendo um total de uns 50 alumnos.» (1)
Se não viveu muitos anos, Campos Melo soube cuidar do seu destino em vida e quanto à sua última morada, pois no cemitério da Covilhã, no corredor central, segundo patamar, pode apreciar-se a beleza do seu jazigo, de portas de três arcos de volta perfeita com colunas de capitéis adossadas. Partilhou-o, sobretudo, com um seu irmão mais velho (que dá o seu nome a outra grande artéria da Covilhã, a rua Visconde da Coriscada):
«Francisco Joaquim da Silva Campos Mello (conselheiro e primeiro visconde da Coriscada) — nasceu na Covilhan em 5 de Janeiro de 1824 e morreu a 13 de Maio de 1876. Foi presidente da Camara Municipal de Covilhan, valoroso industrial, escrivão e provedor da Misericordia d’esta cidade, á qual deixou em testamento 1.500$000 reis em acções do Banco da Covilhan.
Em 1871 recebeu o titulo de Barão da Coriscada, que depois se mudou no de visconde.
Promoveu o desenvolvimento da industria covilhanense e ligou o seu nome a muitas instituições de caridade e de progresso.» (1)
É evidente que a herança industrial de Campos Melo se situa hoje nas fábricas que souberam acompanhar a evolução técnica dos tempos, como as fábricas de Paulo Oliveira ou de Brancal, mantendo o nome da Covilhã na primeira fileira da produção de lanifícios do mundo.

(1) Quintella, Artur de Moura; Carvalho, A. Crespo de- Subsidios para a Monographia da Covilhan (1899)
(2) Barata, J. Reis- Covilhã-Nascimento e Consolidação (2006)



José Manuel Morão

Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

PREÂMBULO

Não pretendo mostrar neste blogue investigação ou erudição sobre a Covilhã, que não possuo nem me proponho encaminhar-me para essas actividades. O que disser neste âmbito, digo-o porque já o sabia. Pretendo assumir a pose de um simples natural da Covilhã, que evoca o que no seu entender foi e é mais marcante na Covilhã. Os temas envolvidos serão decerto diversificados, desde a figura histórica até ao convívio de juventude na cidade. Fujo dos temas polémicos, ponho-me à parte da discórdia. Pretendo recordar e viver o que a Covilhã tem de melhor para mim, para muitos covilhanenses e para muitos habitantes do concelho: pretendo caminhar para o âmago da Covilhã, o que se sabe que só se consegue ao fim de uma vida… Pretendo revisitar a Covilhã, como alguém que já a conheceu e agora a olha com outros olhos…


José Manuel Morão, antigo aluno da Escola Frei Heitor Pinto e da Escola Campos Melo